Estar ou não estar...
Ontem estava conversando com a minha host sobre escolhas e rematch. Ela me disse que quando estava na EF não via tantos casos de rematch, e que acha que tem muito mais pela AuPairCare. Se isso é real ou se é só porque eu comento com ela sobre todos os casos de rematch de que tenho notícia, não faço idéia, mas foi essa nossa conversa. Isso me fez pensar sobre o assunto.
Antes da gente vir pra cá, ficamos tentando imaginar como será, e acabamos fantasiando milhões de coisas. Queremos achar a família perfeita, ter um carrão lindo só pra nós, poder sair sem ter horário pra voltar, ter todos os finais de semana livres, um quarto gigante numa parte afastada da casa pra nem ver ninguém nos horários de folga, um banheiro só pra gente, TV e DVD no quarto, computador disponível (de preferência no quarto) e com internet, telefone no quarto, crianças boazinhas, muito tempo livre, e por aí vai. Tudo isso é muito bom, mas qual é a realidade? Algumas meninas têm tudo isso, outras não. Mas nada disso garante que o nosso ano será feliz aqui.
O que acontece, muitas vezes, é que as expectativas são tão grandes que acabamos nos desapontando depois. Esse desapontamento pode levar a gente a acreditar que a família não é tudo aquilo que pensávamos, e isso pode levar a um desentendimento tão grande que irá resultar em rematch. Não tiro a culpa da família, de jeito nenhum, apenas estou focando o lado de au pair, por ser aquele no qual me encontro. Porque eles, as famílias, enquanto esperam por nós, também criam muitas expectativas que, depois, se não alcançadas, levarão ao rematch. Mas então qual a solução?
É muito difícil saber exatamente pois não há fórmula mágica (como disse a Ana Paula no blog dela). Pensamos que será fácil chegar aqui e já cuidar das crianças e viver nossa vida como se nada tivesse mudado. Que teremos crianças que serão adoráveis 100% do tempo. Crianças que não brigarão nunca, não farão birra, não baterão o pé pra nada. Mas a realidade é outra, e mesmo criança boazinha tem seus dias de capeta.
Primeiro vamos pro treinamento em NY, que é só festa, só diversão, e pensamos que tudo será lindo e maravilhoso aqui no país das oportunidades. Passeamos um monte e conhecemos pessoas de diversos países. Dividimos quarto e cama com completos estranhos e já no segundo dia parece que nos conhecemos a vida toda. Mas daí chega o dia da partida. A gente já acorda diferente, muito abraço, muito choro, muitas promessas de telefonemas e emails. A insegurança toma conta e sentimos um frio na barriga só de pensar que dentro de poucas horas veremos nossa nova família. É emocionante e assustador ao mesmo tempo.
Quando chegamos na casa da família nos encantamos olhando a casa. Queremos logo conhecer cada canto, saber o que se esconde por trás de cada porta. Olhamos pra mesa e já nos imaginamos tomando o café da manhã com a família toda, comendo panquecas e rindo muito, como nos filmes. Geralmente nosso quarto é o último do tour, e ficamos muito contentes olhando praquele quarto decoradinho especialmente para nós, com uma cama arrumadinha e aconchegante. Queremos logo começar nossa vida aqui.
Mas então amanhece. É a manhã do primeiro dia com a família. Quando abrimos os olhos um misto de felicidade e estranhamento toma conta. Não reconhecemos nada, nem nosso travesseiro, nem nossa cama, nem a posição dos móveis no quarto. Mas estamos contentes por estar aqui e sabemos que tudo vai se ajeitar, que tudo ficará bem, de um jeito ou de outro.
As primeiras semanas são as mais difíceis. É tudo diferente. E nos damos conta que não temos mais nossos amigos de toda uma vida, não temos mais nossa família pra implicar no almoço de domingo, e não temos mais nossas "lembranças". Verdade que trouxemos alguns ítens pessoais, mas, como temos limite de bagagem, não conseguimos trazer as "recordações" de toda uma vida vivida. E, é aí, que bate a saudade.
Eu diria que essa saudade, essa vontade incontrolável de chorar que muitos sentem, é apenas uma reação natural do ser humano. É muito difícil lidar com a perda, e uma mudança como a nossa, onde a gente larga tudo (mesmo que temporariamente) pra viver uma aventura, é uma sensação de perda muito grande. Li um artigo que comparava os diversos tipos de perda e sua consequência para o indivíduo, e uma mudança de um lugar para outro completamente diferente (como no nosso caso) foi apontada como sendo tão estressante quanto divórcio ou morte de parente próximo. Realmente é uma mudança drástica, e o corpo apenas tenta lidar com algo que não estava acostumado. A gente pensa que sabe o que vai encontrar, mas acaba sendo muito mais difícil. Quando a gente dá sorte de parar numa boa família, que nos compreende e nos apóia, ótimo. As coisas acabam sendo mais fáceis, e a gente vai se adaptando, aos poucos, como um bebê que aprende a engatinhar, depois a andar e a correr. E a vida segue, sem muitos obstáculos, e fica a cada dia mais fácil. Mas e se a família não nos compreende, e se a família não nos apóia e nos conforta? O que fazemos então? Então aprendemos a ser fortes por nós mesmos. Aprendemos, na marra, que a vida é feita de altos e baixos e que precisamos estar preparados para levantar depois do tombo, sacudir a poeira e dar a volta por cima. É fácil? Não, claro que não. Mas é possível? Com certeza. Somos muito mais fortes do que imaginamos, e muito mais capazes do que jamais poderemos imaginar. E então seguimos ao próximo passo, à uma nova etapa de nossas vidas.
Para alguns esse passo é o rematch, para outros é a volta para casa. Nenhuma dessas opções é fácil de se tomar, mas são as que temos em mãos. A vida nos dá cartas para jogar, e cabe a nós decidir o que faremos com elas. Qual é a melhor opção? Vai depender de quem a toma, é algo individual, portanto ninguém pode saber melhor que a gente qual seria a melhor opção. Mas ela será decisiva para o nosso crescimento, seja ela qual for. É apenas mais uma etapa de nossas vidas onde devemos decidir que caminho seguir, se vamos pra direita ou pra esquerda, se caímos na boca do leão ou se enfrentamos um crocodilo. Qual é o melhor? Vai depender das nossas armas e munições, vai depender da nossa bagagem de vida.
Opção tomada, partimos para uma nova etapa. Se ficamos, vamos nos deparar com uma novo família, um novo recomeço. Ficamos mais tolerantes e repensamos nossas atitudes. Passamos a escolhar quais as qualidades que são mais importantes (para nós) na nova família e quais os defeitos que toleraremos melhor. Afinal, morar com uma família, é quase como um casamento, temos que procurar quais os defeitos que nos incomodam menos, ao invés de nos concentrarmos somente nos benefícios que teremos aqui. Benefícios são muito bons, mas em cada família é diferente. O sucesso na escolha da família se dá, não pelos benefícios, mas pela busca de afinidades e diferenças.
Mas, se voltamos ao nosso país, também voltamos mudados. Quando voltamos já não somos mais a mesma pessoa que partiu, somos outro alguém. Voltamos mudados porque já vivenciamos algo diferente e marcante em nossas vidas, e ninguém escapa disso. Voltamos um alguém com uma bagagem diferente, uma bagagem que pode ou não fazer sentido no momento, que pode ou não ser evidente, mas que está lá. E essa mudança, essa nova bagagem, vai nos transformar no indivíduo que seremos amanhã.
Qual a melhor opção? A escolha é nossa, e acabe a nós descobrir, mas com certeza será uma experiência marcante para todos que estejam dispostos a correr o risco. Será marcante de uma forma diferente para cada um. Será inesquecível, seja qual for o resultado final. Será a nossa vida, a nossa experiência, a nossa vivência. E isso ninguém pode tirar da gente.


