Adivinha como começou meu dia?
Bom, vamos por partes, pra não assustar.
Temos uma nova Au Pair (AP) na casa. Como volto pro Brasil em duas semanas e preciso de tempo pra empacotar minhas coisas e estudar, decidimos (adianta dizer que não?) que eu não iria trabalhar nestas duas semanas, podendo usar meu tempo livre pro que quiser. Preferiria trabalhar e ter uma graninha a mais, mas a gente não pode ter tudo na vida, não é mesmo?
Pois bem. Hoje, primeiro dia sem trabalhar, o que acontece? O carro quebra. Pois é, o carro usado pela au pair (e por mim!), um Mercury Sable 1995, aparenta ter dado seu último suspiro no dia de hoje.
Assim que a AP ligou o carro pra esquentar (no frio tem que ligar o carro meia hora antes de sair de casa) ele começou a dar sinais de que iria pifar. Morreu, depois o freio meio que falhou, depois começou a chacoalhar todo. Tentamos ligar mais algumas vezes, mas daí acho que acabamos por engasgar o motor.
Tá, tudo bem, sem problemas, mas... como é que a gente leva as crianças pra escola sem carro? Andando? É longe pra burro. Não dá.
Ligamos pra Alma Caridosa, mãe de uma coleguinha, e ela veio buscar as crianças aqui e levá-las na escola.
Passei a manhã pesquisando na internet respostas para o que tinha acontecido e tentando acalmar minha host pelo telefone. Perto da hora do almoço fui tentar ligar o carro de novo. Nada. A Host já me avisou que eles não têm dinheiro agora pra mandar arrumar, e que se o carro pifou a gente vai ter que ficar sem o terceiro carro. Como assim sem o terceiro carro? Como é que eu vou pra aula? E as crianças? Os maiores podem pegar ônibus escolar, mas a Pequena não, vai ter que parar de ir pra escolinha (ela freqüenta o pré 3 tardes por semana). E o que eu vou fazer trancada o dia todo em casa nessas duas semanas que eu tenho, supostamente, pra fazer o que eu quiser?
A Alma Caridosa, mãe da Coleguinha, fica de ir buscar as crianças na escola e trazê-las pra cá. Ótimo.
Enfim, resolvi ligar pra HP pra reclamar do meu laptop que tava com problemas. Fico até duas e meia da tarde no telefone e no chat online da empresa e nada de resolverem. Vou ter que devolver, porque consertar vai demorar e eu nem receberia de volta antes de ir pro Brasil. Tudo bem, meu laptop antigo ainda funciona, vou ficar com ele mesmo.Tá, às duas e meia resolvo tomar um banho, pra ver se refresco a cuca.
A Alma Caridosa que foi buscar as crianças me liga dizendo que vai levá-los pra casa dela pra brincarem por uma meia hora, depois ela despacha eles aqui. Tá, tudo bem. Aviso a nova AP.
Tento me concentrar pra fazer o trabalho de fotografia (atrasado, era pra semana passada) mas minha cabeça tá cheia de preocupações. Nisso liga a Vizinha, mãe da outra coleguinha, no meu celular querendo agendar playdate. Ela sabe que a gente tem outra au pair, mas prefere ligar pra mim. Acerto tudo e aviso a AP.
Tento me concentrar novamente.
As crianças chegam e começa a correria pela casa.
Logo alguém bate na minha porta. É a Coleguinha, filha da Alma Caridosa, que vai passar a tarde aqui. Queria só dar oi. Ela é uma fofa, bem querida, mas justo hoje que minha cabeça tá estourando e eu preciso me concentrar, nem foi um bom dia.
Novamente alguém bate. A AP querendo saber se a Alma Caridosa pode trazer a Filha Mais Velha que quer brincar com a nossa Do Meio. Falo que não dá, a Do Meio tem playdate com a Filha da Vizinha hoje, mas que a Filha Mais Velha pode vir brincar com as outras crianças. Aproveito e dou os telefones da Alma Caridosa e da Vizinha pra AP.
Novas batidas. A Do Meio perguntando se a AP está aqui.
Novas batidas. O Menino perguntando se ele pode ecrever as palavras da tarefa em ordem alfabética na agenda. Falo que é pra fazer no caderno, mas claro que ele esqueceu novamente o caderno na escola. Falo pra perguntar pra AP e ele me comunica que foi ela que mandou ele vir falar comigo. "Pode. Escreve onde achar melhor: na agenda, numa folha solta, não faz diferença." E lá se vai ele.
O Cachorro começa a latir desesperado. Late como se o mundo fosse acabar. Mas também escuto um outro latido, abafado, meio estranho, vinho do corredor. Abro a porta e dou de cara com a Pequena de quatro latindo pra Cachorro. Mando a Pequena parar e vou checar onde está a AP, que deveria ter controlado a situação. Ela está lá fora se despedindo da Vizinha que veio buscar a Do Meio.
Volto pro quarto e toca o telefone. Dessa vez não atendo. Vi que era a Alma Caridosa, mas deixei pra AP atender.
Começo a escrever e recebo uma mensagem de texto da Host perguntando se o Marido já chegou em casa, que ele ficou de chegar mais cedo (por causa do carro quebrado). Respondo que não, mas vou checar, só pra garantir.
É, realmente ele não chegou ainda.
E agora já são 5h25 e eu ainda não fiz a porcaria do trabalho.
Agora me diz: tenho ou não o direito dereclamar? Cadê o meu dia livre pra fazer o que eu bem entender? Cadê a minha paz? Cadê o carro pra eu poder, ao menos, sair da casa e poder fazer meus trabalhos sem ser interrompida?
Fala sério... hoje o dia não tá evoluindo.